Pesquisa

Estudo realizado em hospital da Rede Ebserh revela doença causada por novo parasita

seg, 14/10/2019 - 10:22

Pacientes apresentaram sintomas parecidos aos da leishmaniose como febre, aumento do baço e do fígado

Segundo pesquisador, parasita descoberto tem potencial para se tornar um problema de saúde pública

Aracaju (SE) – Em 2011, o pesquisador e imunologista da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Roque Almeida, começou a perceber que alguns pacientes buscavam atendimento no Hospital Universitário (que é vinculado à instituição de ensino e à Rede Ebserh) apresentando sintomas parecidos aos da leishmaniose. Os tratamentos convencionais não surtiam efeito e o pesquisador conseguiu isolar o parasita causador da doença, enviando-o para análises do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), em São Paulo, do qual faz parte.

Os resultados da pesquisa foram publicados em uma revista especializada, concluindo que o parasita não pertence ao gênero Leishmania, composto por várias espécies causadoras de diferentes tipos de leishmaniose. A espécie está mais próxima da Crithidia fasciculata, um parasita presente em mosquitos, mas que não infecta vertebrados – como os humanos e demais mamíferos. A nova espécie, entretanto, infectou 150 pessoas em Sergipe, atendidas por Roque, que isolou os parasitas desses pacientes para ampliação dos estudos.

“Atualmente, temos 150 isolados de parasitos provenientes de pacientes e pretendemos sequenciar o genoma para verificar a extensão desta doença emergente. Vale ressaltar que, de acordo com dados do Ministério da Saúde, o estado de Sergipe tem uma das mais altas taxas de mortalidade do Brasil por leishmaniose visceral, em torno de 15%, quando o esperado seria de 6%”, alerta o pesquisador.

Após testes em camundongos, os cientistas confirmaram que o parasita tem realmente a capacidade de se instalar em vertebrados.

Sintomas e causas

Os sintomas da doença, que ainda não tem nome, são parecidos aos da leishmaniose visceral: febre, aumento do baço e do fígado e diminuição de todos os tipos de células sanguíneas. No primeiro paciente atendido por Roque, um homem de 64 anos que veio a óbito, a doença manifestou também lesões de pele parecidas às de outro tipo de leishmaniose, a tegumentar. "Talvez estejamos diante de um grande problema decorrente da presença de um novo agente infecioso e não dispomos ainda de terapêutica adequada", alerta o pesquisador.

Ainda não se sabe também como a doença é transmitida. O parasita da leishmaniose visceral é transmitido pelo mosquito palha. Já a Crithidia fasciculata, que se assemelha à espécie descoberta, está presente em outros tipos de mosquitos, como os que transmitem a malária e até o Culex, famoso pernilongo (ou muriçoca, para os nordestinos). No entanto, falta ainda muitos estudos, tanto para conhecer melhor a doença e criar tratamentos, como para confirmar o agente transmissor.

O que se sabe é que o parasita descoberto tem potencial para se tornar um problema de saúde pública. “Estamos tentando sequenciar o DNA de vários outros parasitos para identificar mais isolados do novo agente infecioso. Estamos também iniciando estudos de campo para identificar o mosquito transmissor e possíveis reservatórios do parasito”, diz Roque Almeida.

Sobre a Ebserh

Desde outubro de 2013, o HU-UFS faz parte da Rede Ebserh. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 40 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência.

Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas.

Devido a essa natureza educacional, a os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a Rede de Hospitais Universitários Federais atua de forma complementar ao SUS, não sendo responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país.

Fonte
Com informações do HU-UFS/Ebserh
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